terça-feira, 21 de dezembro de 2010

UM MINUTO APENAS

Lúcia era uma mulher feliz. Como poucas, acreditava.

Casada com o homem por quem se apaixonara nos verdes anos da adolescência, vivia o sonho da mulher realizada.

Um filho lhe viera coroar a felicidade. Que mais ela poderia desejar?

Acordava pela manhã e saudava o dia cantarolando.

Com alegria realizava as tarefas do lar, cuidava do filho, aguardava o marido.

Tudo ia muito bem.

Até o dia em que descobriu que o homem que tanto amava, a traía.

E não era de agora.

O problema vinha tomando corpo de algum tempo.

Magoada, se dirigiu ao marido.

Exigiu-lhe e falou-lhe de respeito.

A resposta foi brutal, violenta.

O homem encantador tornou-se raivoso, briguento.

Chegou a lhe bater.

Foi nesse dia que Lúcia teve a certeza de que seu casamento acabara.

Era o cúmulo.

Não poderia prosseguir a viver com alguém que chegara à agressão física.

Então, acordou na manhã de tristeza, depois de uma noite de angústia e tomou uma séria decisão.

Iria se matar.

Acabar com a própria vida.

Mais do que isto.

Ela desejava vingança.

Por isto, tomou o filho de 4 anos pela mão e decidiu que o mataria.

Queria que o marido ficasse com drama de consciência.

Seu destino era o Farol da Barra, na cidade de Salvador, na Bahia, onde residia.

Ela sabia que era um local onde o mar batia com violência no penhasco.

A rua por onde transitava era movimentada.

Muitos carros.

Enquanto aguardava para atravessar a rua, a criança lhe escapou das mãos e correu, entre os carros.

Ela se desesperou.

Estranho paradoxo.

Conduzia a criança pela mão e tencionava jogá-la do penhasco ao mar para que morresse.

Mas, quando a vê correr perigo, esquecida de si mesma, vai-lhe ao encontro, agarra-a, até um pouco raivosa.

Puxa-¬a pela mão.

Neste momento, a criança se abaixa, alheia a tudo que se passava, e recolhe do chão um papel.

Lúcia o arranca das mãos do pequeno e um título, em letras grandes, lhe chama a atenção:

Um minuto apenas.

Ela lê:

Num minuto apenas, a tormenta acalma, a dor passa, o ausente chega.

O dinheiro muda de mão, o amor parte, a vida muda.

Vai andando, puxando a criança e lendo a página.

Era uma página mediúnica que vinha assinada por um Espírito.

Ela terminou de ler.

Passou o ímpeto.

Em um minuto.

Parou, olhou ao redor e verificou que tinha chegado ao seu destino.

O penhasco estava próximo.

Sentou-se e teve uma crise de choro.

O impulso de se matar havia desaparecido.

Tornou a ler a mensagem.

Ela se recordou de um senhor que era espírita e trabalhava no Banco, no mesmo onde seu marido trabalhava.

Foi para casa. Lembrou que um dia, jantando em casa dele, ele falara algo sobre Espiritismo.

Algo que ela e o marido, por terem outra formação religiosa, rechaçaram de imediato.

Ela lhe telefonou, pediu-lhe orientação e ele a encaminhou a um Centro Espírita.

Atendida por companheiro dedicado, que lhe ouviu os gritos da alma aflita, passou a buscar na oração sincera, na leitura nobre, no passe reconfortante, as necessárias forças para superar a crise.

O marido, notando-lhe a mudança, a calma, no transcorrer dos dias, a seguiu em uma das suas saídas do lar.

Desconfiado, adentrou ele também à Casa Espírita.

Para descobrir uma fonte de consolo e esclarecimento.

Hoje, ambos trabalham na Seara Espírita. Reconstituíram sua vida, refizeram-se.

Os anos rolaram.

O garoto é um adolescente e mais dois filhos se somaram a ele.

* * *

Mudança de rumo.

A vida muda.

Em um minuto apenas.

Em um minuto apenas Deus providencia o socorro.

Pode ser um coração atento, uma mão amiga ou um pedaço de papel impresso caído na calçada.

Papel que o vento não levou para longe.

Um minuto apenas e o amor volta.

A esperança renasce.

Um minuto apenas e o sol rompe as nuvens, clareando tudo.

Não se desespere.

Espere.

Um minuto apenas.

O socorro chega.

O panorama se modifica.

A vida refloresce.

Tenha paciência.

Não se entregue à desesperança.

Aguarde.

Enquanto você sofre, Deus providencia o auxílio.

Aguarde.

Um minuto apenas.

Sessenta segundos.

Uma vida.

Um minuto a mais...

* * *

Em um minuto apenas, a Misericórdia Divina se derrama, cheia de bênçãos, nas vielas escuras dos passos humanos.

Corrige, saneia, repara, transformando-as em estradas luminosas no rumo da vida maior.


Redação do Momento Espírita, com base no cap. 24 do livro O semeador de estrelas, de Suely Caldas Schubert, ed. Leal.

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